Por serem inatas à própria consciência humana, as leis fundamentais da cognição podem ser deduzidas por qualquer indivíduo racional. Basta que se comece com os primeiros princípios e, a partir deles, siga-se com rigor lógico e análise das evidências. Por isso, não é de causar espanto que em 1969 o matemático George Spencer-Brown as tenha deduzido e resumido em seu trabalho “Leis da Forma”.
A obra Leis da Forma trata daquilo que é definido habitualmente como uma matemática da consciência. Essa definição, porém, ainda é modesta. E isso porque Spencer-Brown, recompondo os passos já feitos por outros matemáticos em outras eras, reconstruiu, a partir dos primeiros princípios, as leis subjacentes não só à linguística, à matemática, à física, à biologia e à cognição humana. O resultado também é uma síntese matemática do próprio processo de criação do universo, tal como descrito pelos antigos gnósticos.
Com rigor lógico, George Spencer-Brown concluiu que qualquer ato de criação ou de cognição começa com um evento primordial: a primeira separação ou distinção.
“Um universo passa a existir quando um espaço é dividido ou separado”, ele ilustra. Da mesma maneira, a membrana ou de um organismo vivo separa um mundo exterior do mundo interior, pré-condição essa sem a qual nem é possível falar de um organismo vivo minimamente complexo, como uma criatura unicelular.

Na Roda da Vida budista, um dos elos do encadeamento que mantém presa a consciência humana, o samskara ou a atividade volitiva e criadora, é representada por um oleiro criando um vaso, isto é, uma estrutura que separa o espaço interior do exterior. O primeiro ato de um recém-nascido ao sair do útero e que todo animal repete até morrer, respirar, consiste em trazer ar para dentro e lançar ar para fora.
Esse é um conceito elementar da moderna teoria da informação, em que todas as coisas são definidas pelo seu contraste com tudo o mais. Ou seja, em última instância, tudo é definido por aquilo que não é, da mesma forma como o código binário constituído de zeros (0) e uns (1) é apenas definido pela distinção de estados arbitrários, traduzidos na máquina como pulsos eletromagnéticos contrastantes.
Essa também é uma verdade profunda e intuitiva, que ocorre até no caso da criação de um simples círculo em um plano bidimensional.
onsidere uma folha de papel. Ela pode ser considerada um nada, sem qualquer informação a não ser que é uma dimensão bidimensional.
Se, porém, desenharmos um círculo nessa mesma folha, a circunferência desse círculo cria uma primeira distinção no plano bidimensional: o nada do lado de dentro e o nada do lado de fora. É importante observar que não é apenas um ato de distinção entre dentro e fora (como se houvesse algo anteriormente que pudesse ser distinto de um lado e de outro), mas um ato de criação do dentro e do fora.

A base desse sistema é trinária, pois “cada dualidade implica em triplicidade: o que é, o que não é, e a fronteira entre ambos”. Mas sabemos do processo de aprendizado que não há fronteira, mas sobreposição, ou seja, ser e não-ser coexistem na singularidade. A única fronteira que existe é aquela inventada pelo observador. A separação, por fim, é a própria consciência no ato de observação.

Esse ato de separação é o ato de criação do próprio universo a partir de uma só coisa. Se “Deus” possui apenas a si mesmo para criar o universo, já que é a absoluta totalidade, então o primeiro ato é a distinção entre criador e criação. Da mesma forma, se uma consciência animal tem apenas a si mesma como material para criar ou representar o universo, o primeiro ato é a distinção entre observador e observado. E essa é a primeira atividade que o algoritmo descritivo da consciência exerce em cada instante, em cada retomada do circuito que termina com uma determinada descrição do mundo circundante e se reinicia com a próxima atualização dessa descrição, conforme as mudanças que seus sentidos lhe informam terem ocorrido no ambiente exterior.
No Tamulde, o princípio da distinção ou contraste máximo é o que ocorre na criação do universo enquanto processo chamado de tzimtzum, no qual o inominável (Ein Sof, “Deus”) cria o cosmos inicialmente contraindo-se em si mesmo a partir de si mesmo (tzimtzum), criando o infinito conceitual a seu redor. Esse é um movimento arquetípico de criação do infinito (isto é, da dimensionalidade) a partir da singularidade. Como veremos, é provável que esses dois conceitos ou potências arquetípicas elementares, o contraste elementar entre infinito e infinitesimal, fossem associadas simbolicamente ao “casal primordial” pelas antigas tribos de caçadores-coletores de parte da antiga Mesopotâmia e Anatólia, antes de Gobekli Tepe.
Todo o processo, portanto, é regido por um ato inicial de vontade, uma intenção de separação que se expressa em um comando. A esse comando, Spencer-Brown batizou de injunção.
A injunção elementar, ou seja, o comando primeiro da voz criadora de um universo (ou de uma representação de um universo) pode ser traduzida, a depender do contexto, por uma das seguintes expressões ou ordens:
– “Desenhe uma distinção” (lógica);
– “Que haja uma distinção” (criação);
– “Encontre uma distinção” (cognição);
– “Descreva uma distinção” (consciência);
– “Defina uma distinção” (linguagem);
Para Spencer-Brown, as formas que parecem ter substância são, na verdade, apenas o “enquadramento do vazio”. A separação, portanto, é um dos arquétipos fundamentais, e para simbolizá-la matematicamente Spencer-Brown imaginou não um círculo, mas um quadrado que, para simplificação didática, acabou resumido a duas arestas.


Na realidade participatória, a primeira separação é sempre aquela que distingue o observador do mundo observado. Separando-se, por exemplo, o mundo exterior, material, do mundo interior, subjetivo, a consciência constrói a base para o cumprimento de sua função principal, representar ao organismo vivo a realidade circundante. Sabemos, ainda, que consciência é separação também no sentido de que, no desempenho de sua função, a todo instante ela separa o hipercontexto em infinitas de tramas de realidade, dividindo a si própria em tantas quantas forem essas tramas.
Já vimos que a consciência, qualquer consciência, não pode representar o universo ao observador senão usando aquilo que o observador possui em si mesmo. E se o único elemento cognitivo, a única peça de informação que o observador possui inicialmente é feita pela separação entre o que é e o que não é, então o universo começa a ser representado com um primeiro contraste, uma primeira secção.
Portanto, observador e separação estão estreitamente vinculados, assim como o observador está vinculado ao observado na criação da realidade participatória. Na verdade, não há distinção possível sem um observador que perceba ou vivencie a existência da distinção naquilo que observa.

Outro elemento fundamental dessa dinâmica é o ato de indicação. “Uma vez que uma distinção é desenhada, os espaços, estados ou conteúdo de cada um dos lados da fronteira, sendo distinguíveis, podem ser indicados”. A partir da separação, pode-se indicar que isso (o espaço interior ao círculo, por exemplo) é diferente daquilo (o espaço exterior do círculo).
“Temos como pressuposto a ideia de distinção e a ideia de indicação”, diz Spencer-Brown, e “alguém não pode fazer uma indicação sem criar uma distinção”. O primeiro ato da consciência após a separação entre mundo exterior e interior, portanto, é qualificar os elementos de um desses mundos segundo aquilo que os distingue do que há naquele outro mundo que existe além da fronteira. Se esse mundo é “X”, necessariamente o outro mundo é “não-X”, a indicação de um já implica na indicação do outro.
Portanto, na terminologia de Spencer-Brown, forma é isto: uma distinção entre algo que se indica e algo que não se indica, sendo que ambos mantêm uma relação de complementaridade, de modo que o não-indicado se define pelo indicado, e vice-versa. A identidade do observador, ou de qualquer outra coisa no universo, não é sustentada por qualquer substância ou qualidade inerente, mas só pelo ato de indicação que o distingue, cognitivamente, do restante das coisas do universo.
Desse modo, qualquer estado imaginável de algo ou alguém (a posição de um objeto, a frequência de uma onda) pode ser definido através de distinções (o objeto está aqui, não ali; a frequência da onda é essa, não outra). E se a identidade é uma forma de distinção, então essa distinção é “autocontida”, nas palavras de Spencer-Brown, isto é, é auto-referenciada tal como um ourobouros que devora sua própria cauda.
O primeiro resultado de toda a indicação é uma marca. A marca é um signo, sinal ou etiqueta com o qual isso pode ser distinguido daquilo. Em qualquer linguagem, inclusive a primeva, a marca é o nome que se dá a alguma coisa.
Através da marca, é possível invocar a forma quando essa é a intenção do observador, da mesma forma que o nome de uma coisa serve, na linguagem, para referir-se a essa coisa. A marca, portanto, pode ser vista como uma ferramenta construída pela vontade para manipular a forma, invocando-a, e assim iniciar a construção de algo.
Com a marca, ocorre o primeiro processo elementar de conhecimento pela consciência. “Um estado torna-se conhecido através da marca”, resume Spencer-Brown.
E com a invocação da marca, estruturas de aritmética booleana manipulam estados binários de indicado/não-indicado para construir todos os demais processos de cognição possíveis, mesmo aqueles mais complexos, do mesmo modo que um supercomputador pode simular realidades virtuais intrincadas a partir de zeros e uns. Utilizando operações básicas de invocação (calling – que resulta na presença) e trespasse (crossing – que resulta na ausência), é possível criar toda a representação do universo circundante.
como percebeu Spencer-Brown, a comunicação descritiva da consciência pressupõe, como passo precedente, uma comunicação injuntiva, isto é, um comando da vontade criadora.
Por tal razão é que Spencer-Brown comparava a dinâmica matemática que descobriu à arte musical, em que o compositor, ao invés de descrever ao ouvinte as notas musicais ou as emoções que pretende despertar com elas, registra um conjunto de comandos na partitura, de modo que, observando-os, o músico pode transmitir imediatamente ao cérebro do ouvinte a experiência psíquica que o compositor formulou em sua mente.
