Stevenson provou que existe reencarnação?

(Trecho adaptado da obra Teoria Geral do Espírito, com autorização dos autores/colaboradores)

A crença em reencarnação é muito comum entre fieis de diferentes religiões e culturas ao redor da Terra. Antigos gregos, hindus, budistas, hebreus, celtas, pitagóricos e neoplatônicos, entre outros povos, acreditavam que o espírito humano sobrevivia à morte e retornava à vida reencarnado em outro corpo.

Assim, as religiões budista, hindu e jainista descrevem o processo de reencarnações sucessivas influenciadas pelo “karma”, uma relação de “causa e efeito” em que a conduta em uma vida condiciona as vivências na próxima. Os filósofos gregos Platão e Pitágoras ensinavam sobre a “mentepsikosis”, ou reencarnação. Os povos celtas acreditavam que a alma do ser humano era imortal, e que, após a morte, voltamos a viver em outro corpo após algum tempo. No judaísmo, a cabala ensina sobre o “gigul”, a “transmigração das almas”, descrita como um contínuo ciclo de mortes e reencarnações.

Ao lado das antigas religiões, as pesquisas modernas têm acumulado um impressionante número de relatos de crianças capazes de lembrar de suas vidas passadas. Um dos pioneiros dessa área foi o psiquiatra estadunidense Ian Stevenson.

No período em que foi chefe do departamento de psiquiatria da Universidade da Virgínia, EUA, Stevenson publicou seu primeiro estudo sobre o tema [1], em que apresentou 44 casos notáveis de memórias de vidas passadas, que não se ajustavam a qualquer outra explicação racional. Com o sucesso da publicação, Stevenson passou a coletar novas narrativas sobre reencarnação ao redor do mundo, e posteriormente fundou a Divisão de Estudos da Personalidade da Universidade da Virgínia, EUA, único departamento acadêmico do mundo destinado ao estudo da reencarnação.

Ian Stevenson

Stevenson notabilizou-se por seu trabalho meticuloso, documentando histórias, principalmente de crianças de até oito anos de idade, sobre supostas memórias de outras vidas passadas. Tais relatos eram submetidos pelo psiquiatra ao crivo científico, com a busca de provas da existência das pessoas que as crianças diziam ter sido. Stevenson seguia um protocolo de verificações cruzadas, tabulações de coincidências entre relatos e fatos, e de comparações entre testemunhos que eram analisados, em seguida, por outros acadêmicos. Em sua obra mais célebre, Reencanation and Biology (1997), Stevenson apresenta 225 casos selecionados entre os quase 3 mil que documentou ao longo das décadas.

Dentre todos os casos estudados por Stevenson, talvez um dos mais famosos, e incomumente protagonizado por um adulto, é o de Dolores Jay, uma estadunidense de formação metodista que, em dado momento, começou a lembrar-se de sua vida passada como uma alemã chamada “Gretchen Gottlieb”, durante sessões de hipnose que passou a fazer como tentativa de atenuar sua dor crônica nas costas. Ela falava fluentemente alemão enquanto estava hipnotizada, e contava, nessa língua, ter sido filha de Hermann Gottlieb, prefeito de Eberswalde, Alemanha, em cuja casa havia uma governanta que chamava de “Frau Schiller”. O problema, para começar, é que Dolores jamais tinha aprendido alemão em sua vida.

Stevenson investigou a infância, o local de origem e de formação de Dolores Jay para confirmar seu total desconhecimento da língua alemã, submetendo-a também a um detector de mentiras. Ele entrevistou-a enquanto hipnotizada em diversas ocasiões, inclusive junto com um jornalista alemão e acadêmicos também de origem alemã, que identificaram o uso de palavras em alemão muito incomuns, salvo em algumas regiões da Alemanha do século dezenove. No total, as entrevistas de “Gretchen” resultaram em 346 páginas com as transcrições.

Outro caso, que provocou comoção da sociedade na época, foi o da menina indiana Shanti Devi. Quando tinha quatro anos de idade, a menina passou a contar que, em sua vida passada havia morado em uma cidade vizinha. Com seis anos, fugiu de casa para ir até esse lugar. Levando mais a sério suas histórias após a fuga, familiares e professores ouviram da menina muitos detalhes de sua vida pregressa, inclusive o nome e profissão do marido, e também sobre sua morte. Todas as informações foram confirmadas por investigadores, que identificaram a família e a mulher que Shanti dizia ter sido.

Até sua morte em 2007, Stevenson e sua equipe catalogaram milhares de relatos como esse, sobre lembranças de vidas passadas, todos submetidos aos mesmos procedimentos de comprovação meticulosa. Ele e os demais membros da Divisão de Estudos da Personalidade sempre foram cautelosos, e jamais propuseram que seu objetivo seria comprovar a reencarnação. Sua finalidade declarada era o estudo de inclinação de parte da população mundial, principalmente crianças, de apresentar relatos espontâneos de vidas pregressas.

Jim Tucker

O trabalho de Stevenson não terminou com sua morte, mas prosseguiu com seus sucessores na chefia do departamento, os também psiquiatras Bruce Greyson e Jim Tucker. Esses confirmaram, com o estudo de novos relatos, as principais conclusões de Stevenson, inclusive a de que as crianças tendem a esquecer a vida passada quando se aproximam dos sete a oito anos de idade [2].

Um dos relatos recentes mais impressionantes é o de Jamies Leininger, documentado por Tucker [3]. Aos dois anos de idade, Leininger começou a ter pesadelos vívidos de um avião em chamas. Seus pais estimularam o menino a contar sobre os nomes e palavras que escutava durante esses sonhos recorrentes, e o que ouviram foram relatos de guerra e informações sobre aeronáutica incompatíveis com o conhecimento de uma criança daquela idade. 

O menino, entre outras coisas, lembrava dos nomes “James” e “Natoma”, e frases como “o avião foi abatido” e “avião em chamas”. Também recordou que alguém chamado “Jack Larsen” teria sido seu colega. O cruzamento dessas informações levou à descoberta do piloto de guerra norte-americano James Huston Jr., que morreu na batalha de Iwo Jima em 1945, após decolar do porta-aviões Natoma. Um dos pilotos que sobreviveram e tinham combatido junto com Huston era Jack Larsen, que ainda estava vivo e confirmou aos pais do menino os relatos sobre o que ocorreu.

James Huston Jr. (esq.) e James Leininger (dir.)

Ian Stevenson jamais afirmou categoricamente que havia provado a existência da reencarnação, inclusive pelo escopo de sua pesquisa científica. Mas considerou temerário afirmar, por outro lado, que não havia prova nenhuma a respeito, e tampouco que a reencarnação negaria as verdades biológicas.

“Reincarnação, ao menos como a concebo”, ele escreveu, “não invalida o que sabemos sobre evolução e genética”. Para ele, os fatos que investigou sugeriram a existência de dois fluxos de evolução – o biológico e o “pessoal”, e que durante a vida terrestre esses fluxos podem interagir. Um exemplo dessa interação, Stevenson observou, seria a aparente correlação entre algumas marcas de nascença e lesões no corpo da vida pregressa, principalmente aquelas relacionadas ao momento da morte, como se a informação genética fosse modelada pelas experiências pessoais.

O problema é que a ciência atual consegue identificar, e até mensurar, o fluxo biológico da evolução. Mas parece quase impossível identificar qualquer sinal daquele fluxo “pessoal” (ou, mais precisamente, “espiritual”), salvo pela memória vestigial de vidas passadas em algumas crianças.

Mas talvez Stevenson tenha fornecido uma pista. A de que podemos compreender a natureza e propósito desse fluxo espiritual através do estudo do fluxo biológico, pois ambos parecem interagir durante a vida encarnada. Nesse caso, o que a evolução genética animal poderia nos revelar?

Notas:

[1] The Evidence of Survival from Claimed Memories of Former Incarnations; Ian Stevenson; 1961.

[2] Life Before life: a scientific investigation of children’s memories of previous lives; Jim B. Tucker; 2005.

[3] Past-life Experiences; A. Mills & J. B. Tucker; 2014.

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