Quem foi Enoque?

Há casos em que as lendas de certos povos atribuem feitos e obras de vários indivíduos reais a um só personagem mítico. O autor grego Homero, por exemplo, possivelmente unifica numa só figura pelo menos dois autores, senão três. O folclórico Rei Arthur, por seu turno, provavelmente é uma fantasia inspirada em vários líderes bretões que combateram as invasões saxãs no quinto e sexto séculos de nossa era.

É importante lembrar desses casos quando se trata do criador da cápsula do tempo, pois a reposta dada pela tradição é de que o autor da cápsula do tempo foi alguém chamado Hanok.

Também conhecido como Enoque, esse personagem lendário é tão antigo que as lendas hebraicas o situam em período anterior ao mítico Grande Dilúvio. Considerado profundo conhecedor da astronomia, Enoque é descrito pelas lendas hebraicas como o inventor da escrita.

Segundo a tradição, Hanok ou Enoque teria sido “o primeiro gnóstico”. Contudo, talvez o correto seja falar em “primeiros gnósticos”. Isso porque, possivelmente, assim como no caso de Homero e do Rei Arthur, trata-se de um personagem folclórico, a que se atribui o trabalho de muitos.

De fato, Enoque vem do hebraico Hanok (חֲנוֹךְ), palavra que significa iniciado, segundo o Lexicon de Friedrich Wilhelm Gesenius. E já vimos que os criadores de cultos iniciáticos como orfismo, gnosticismo e merkabah apenas preservavam, com roupagens distintas, um mesmo conhecimento secreto ou gnose, acessível somente aos iniciados.

Portanto, é provável que Hanok se trate não de um nome próprio, mas de um título dado a membros de uma mesma fraternidade. Irene Blavatsky, lembrando-nos que enoichion em grego significa “olhar interno”, sugere que se trata do título dado algum antigo ofício. Em seus estudos sobre o personagem, James VanderKam e Andrei Orlov chamam a atenção para o fato de que as próprias lendas hebraicas confirmam a suspeita de que se trata de um grupo, e não de um só personagem, pois às vezes conferem identidade coletiva a Enoque, referindo-se a ele no plural como se tratando dos “descendentes de Seth”.

Por trás da lenda de Enoque, pode estar a história de um grupo de indivíduos iniciados em certos mistérios.

Estamos aqui no território em que lendas fazem alusão confusa a fatos históricos importantes para nossos antepassados. Hanok, iniciado, é o título dado aos descendentes de Seth. Seth é o terceiro filho de Adão e Eva, aquele que, segundo o Gênesis, nasceu após Caim matar Abel.

Ainda segundo a mesma passagem, Seth teria nascido exatamente para substituir Abel. O detalhe principal é que Abel é o pastor que foi morto pelo fazendeiro, ou seja, há uma conexão entre a lenda bíblica do primeiro homicídio e a transição dos povos semi-nômades do período Paleolítico e os plantadores de trigo do período Neolítico.

Por isso, como Seth nasceu em substituição a Abel, seus descendentes seriam aqueles grupos que, após a Revolução Neolítica, preservaram um conhecimento ancestral, da fase final do período Paleolítico. Aqueles que resistiram à inexorável transformação do mundo a seu redor, guardando em segredo, protegendo de perseguições religiosas, um conhecimento que, de outro modo, teria sido para sempre perdido.

Yosef ben Mattityahu, também conhecido como Flavius Josephus, em sua obra Antiguidades Judaicas (93/94 D.C.,) conta uma lenda importante para nossa tradição, relativa a esses “descendentes de Seth”.

Josephus conta que os descendentes de Seth “descobriram a ciência sobre os corpos celestiais e seu arranjo ordenado”. Cientes do valor desse conhecimento, “e para prevenir que sua descoberta fosse perdida pela humanidade e desaparecesse antes de se tornarem conhecidas (pois Adão previu a destruição do mundo uma vez por um fogo violento e outra por um poderoso dilúvio)”, os descendentes de Seth “erigiram dois pilares, um de tijolos e outro de pedra, e escreveram suas descobertas em ambos”.

Na verdade, o Enoque hebreu ocupa a mesma posição mítica que o Tot egípcio, o Hermes grego, o Orfeu do orfismo, o Ildris do Alcorão e o Hermes Trimegisto dos alquimistas. Todas essas figuras lendárias são associadas à “linguagem original”, a “linguagem sagrada”, seja por serem seus criadores, primeiros escribas ou miraculosos articuladores.

Por trás desses mitos, oculta-se não um indivíduo, mas um grupo de indivíduos que, conhecedores de uma “linguagem sagrada”, teriam deixado registro desse conhecimento em dois tipos de “pilares” misteriosos, segundo a lenda hebraica.

Até o momento, foram encontradas apenas três obras cuja autoria é atribuída a alguém chamado “Enoque”, tendo sido traduzidas por Robert Charles em 1896, Hugo Odeber em 1922 e James Bruce em 1773. Nenhuma delas, claro, é um dos “pilares” genuínos a que se refere Yosef ben Mattityahu, tratando-se apenas versões simplificadas e adulteradas daqueles que devem ter sido os mais antigos tratados gnósticos, hoje inacessíveis.

Os pesquisadores supõem que a lenda sobre os dois pilares em que os filhos de Seth gravaram seu conhecimento é muito antiga, e serviu de inspiração para outra lenda, aquela sobre duas tábuas de pedra que Moisés trouxe consigo ao descer do Monte Sinai, e que foram guardadas dentro da famosa Arca da Aliança.

Artigos Recentes

As Leis da Forma

Por serem inatas à própria consciência humana, as leis fundamentais da cognição podem ser deduzidas por qualquer indivíduo racional. Basta que se comece com...

O que sabemos sobre a vida após a morte?

Que evidências científicas temos sobre a vida após a morte? Na busca pela resposta, o estudo das experiências de quase-morte ocupam um papel central.

Stevenson provou que existe reencarnação?

A crença na reencarnação é antiga e comum a várias religiões, mas o pesquisador Ian Stevenson enfrentou o fenômeno sob a ótica da ciência.

O Ctenophora e a evolução alienígena

Essa criatura marinha pode revolucionar o que sabemos sobre vida, evolução e consciência.

O segredo no mito de Orfeu

Os antigos gregos consideravam que o mito de Orfeu ocultava verdades iniciáticas, segredos acessíveis apenas àqueles que iniciados em certos "mistérios".