O segredo no mito de Orfeu

Entre os antigos gregos, a lenda de Orfeu não era tratada como mera fábula. Antes, considerava-se que o mito ocultava uma grande verdade, um segredo acessível apenas àqueles que iniciados em certos “mistérios”. O culto depositário desses segredos, de grande influência em todo o mundo helenístico, ficou conhecido como orfismo.

Segundo a lenda, embora Orfeu fosse humano, tinha uma habilidade divina, que surpreendeu mesmo a Apolo, o grande músico entre os deuses. Tocando sua lira, Orfeu criava melodias capazes de encantar e hipnotizar todas as criaturas, mortais e imortais.

Mesmo as feras selvagens e os deuses infernais achavam-se indefesos diante do talento Orfeu. A depender do que tocava, ele parecia capaz de manipular as emoções de seus ouvintes como quisesse.

Na mitologia grega, Orfeu é um dos Argonautas, isto é, um dos companheiros de Jasão na viagem feita em um barco chamado de “Argos”, na busca do Tosão de Ouro. Filho da musa Calíope e de Éagro, rei da Trácia (embora a paternidade seja também atribuída, por algumas versões da lenda, ao próprio deus Apolo), Orfeu um dia conheceu a bela Eurídice e por ela se apaixonou.

Mas, logo após o casamento, Eurídice morre picada por uma serpente. Inconformado, Orfeu decide ir até o reino dos mortos e trazer de volta consigo sua esposa.

Com seu poder musical, ele convence Caronte, o barqueiro que transporta as almas pelo rio Estige, a ajudá-lo. Nos portões do reino dos mortos, ele faz Cérbero, o cão de três cabeças, adormecer com o som de sua lira. E, perante o trono de Hades e Perséfone, rei e rainha da região infernal, Orfeu novamente toca sua música, e com ela traz paz a todas as almas condenadas e faz até mesmo Hades chorar.

“Orfeu no Submundo” (1865) de Henri Regnault, via Wikimedia Commons.

Para livrar-se do poder de sua música, Hades concede que Orfeu leve Euridice de volta ao reino dos vivos. Há, porém, uma condição: ele deve seguir na frente de Eurídice e retornar a pé pelo mais longo e tortuoso caminho que leva de um reino a outro.

Durante o trajeto, Orfeu segue sem jamais olhar para trás. Entretanto, em nenhum momento escuta os passos de Eurídice, não tem resposta quando a chama e não encontra qualquer sinal de que ela o segue.

Aos poucos, Orfeu começa a se convencer de que está só. Assim, quando vê, exaltado e esgotado, a luz do sol e percebe que faltam poucos passos para sair do reino dos mortos, ele tem quase certeza de que Eurídice não o seguiu.

E em um momento de fraqueza, antes de alcançar a saída, Orfeu olha para trás. O que ele vê, quando se volta, é Eurídice sendo arrastada novamente para o reino dos mortos, pois seu marido não ter cumpriu o desafio até o final.

Ao retornar ao mundo dos vivos, Orfeu vive uma vida de celibato, renunciando a adorar qualquer outro deus, salvo Apolo. Enfurecidas ao vê-lo cultuando Apolo em um lugar consagrado a Dioniso, as seguidoras desse outro deus, chamadas de ménades, estraçalham o corpo de Orfeu em pedaços. Apenas sua cabeça e sua lira foram poupados da fúria, e a lenda diz que ambas flutuaram no rio Hebro ainda entoando uma música melancólica.

Essa é a história. Há pontos em comum entre o mito de Orfeu e o mito hebraico do Jardim do Éden, assim como há entre a história oficial de Cristo e o mito do deus grego Dioniso, também figura central do orfismo.

Na verdade, assim como no caso da lenda babilônico de Adapa, tanto a história de Orfeu e Eurídice quanto a narrativa de Adão e Eva falam de um mesmo evento, da perda de uma linguagem divina, cada qual a seu modo. Em todos, por exemplo, a participação de uma serpente é decisiva.

No mito de Orfeu, porém, a verdadeira natureza da linguagem divina fica mais evidente. Os próprios mistérios que o orfismo reservava apenas aos iniciados parecem ter relação com a linguagem e as faculdades auditivas do ser humano.

Fanes, por exemplo, deidade retratada emergindo de um ovo criado pelo tempo, com uma serpente ao redor de seu corpo, era figura recorrente na tradição órfica, e a seu respeito Damáscio deixou a misteriosa informação de que teria sido o primeiro deus “expressável e aceitável para os ouvidos humanos” (πρώτης ητόν τι ἐχούσης καὶ σύμμετρον πρὸς ἀνθρώπων ἀκοάς).

Fanes, deidade associada ao orfismo, que emerge de um ovo criado por Cronos, o deus do Tempo.

A música de Orfeu, capaz de manipular as emoções humanas, é uma metáfora para uma linguagem que os antigos adeptos do orfismo consideravam divina. A morte de Eurídice é a perda do conhecimento dessa linguagem pela humanidade, e sua condenação ao reino dos mortos pelo erro de Orfeu trata da consequência dessa situação, a separação de dois elementos essenciais do espírito humano. A cabeça separada do corpo, flutuando nas águas de um rio, é símbolo de uma condição que os iniciados nos antigos segredos bem conhecem, assim como o corpo separado em pedaços, sem contato com sua fonte.

Mas o que realmente estava por trás da “lira” de Orfeu? Qual o segredo de suas “melodias”?

Formular essas perguntas é iniciar uma busca a que Pitágoras dedicou toda sua vida. É procurar o alfabeto da linguagem divina que se desenvolvia na região da antiga Mesopotâmia há pouco mais de dez mil anos, aquela linguagem que teria feito o homo sapiens ampliar sua consciência, caso um incidente de terríveis proporções não tivesse ocorrido.

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