O que sabemos sobre a vida após a morte?

(Trecho adaptado da obraTeoria Geral do Espírito, com autorização dos autores/colaboradores)

Experiências de quase-morte (EQM) ocorrem quando uma pessoa tem um quadro de morte clínica do qual se recupera a seguir, trazendo dessa experiência um relato vívido de um período fora do corpo. Tais são objeto de estudo científico desde o século dezenove. 

Assim, Albert Heim, que vivenciou ele próprio uma experiência de quase-morte ao cair nos Alpes Suíços, publicou o primeiro trabalho sobre o assunto em 1882, consistente em relatos de pessoas que haviam passado também por esse tipo de vivência. Desde então, muitos outros relatos foram colhidos por um número crescente de pesquisadores interessados no fenômeno. 

Albert Heim

Em 2012, Karlin Osis e Erlendur Haraldsoon apresentaram sua análise de mais de cinco mil relatos de experiências de quase-morta vivenciadas por pacientes oriundos de diferentes países, culturas e religiões. Comparando esses relatos com os registros clínicos dos pacientes, constataram que a probabilidade de experiências ocorrerem não é influenciada pelos medicamentos que haviam sido aplicados pela equipe médica, nem pelo histórico de uso de drogas psicoativas, ou pelo estresse com os eventos que levaram à quase-morte [1].

Em 2013, a pesquisa da equipe de Thonnard e Charland-Verville conclui que as experiências de quase-morte são percebidas de forma mais vívida do que a percepção da realidade desperta pelo paciente, e que as memórias dessas experiências parecem mais reais e intensas do que as memórias de experiências passadas em vida e as “memórias de eventos imaginados” [2]. Por outro lado, eletroencefalogramas do cérebro de pacientes em morte clínica (no caso de morte clínica, não há morte cerebral) apresentam um resultado isoelétrico, ou seja, um traço contínuo, o que revela ausência de atividade cerebral [3], o que traz aos pesquisadores questionamento sobre como são possíveis vivências tão vívidas e intensas, se a atividade cerebral é apenas residual.

Mas ainda que houvesse intensa atividade cerebral durante uma experiência de quase-morte, é estranho que os relatos sejam tão semelhantes, quando os sonhos que temos de noite mostram a riqueza e diversidade de nossa imaginação inconsciente. De fato, o aspecto mais evidente em experiências de quase-morte é a recorrência de certos elementos em quase todos os relatos. Gregory Shushan publicou em 2009 seu estudo comparativo entre crenças religiosas de cinco diferentes civilizações antigas (Suméria/Babilônia, Egípcia, Védica, Chinesa pré-budista e Maia). Assim, Shushan demonstrou a presença de semelhanças entre experiências de pessoas de épocas, regiões e culturas muito distantes e sem intercâmbio, e que dificilmente podiam ser atribuídas a mera coincidência [4].

Desde a publicação, em 1975, do então popular livro de Raymond Moody sobre o assunto, milhares de novos relatos têm confirmado a presença dos mesmos elementos recorrentes em quase todas as experiências de quase-morte. É comum em tais vivências, por exemplo, a percepção da passagem por um túnel que parece conduzir a uma “grande luz”, é descrita em geral como sendo “Deus” ou um “espaço divino”, e que é associada a sentimentos de paz e êxtase. Há, ainda, embora sejam menos frequentes, relatos de ambientes paradisíacos, dotados de grande beleza cênica e que também transmitem profunda serenidade [5].

Infelizmente, nem todos os casos documentados pela ciência são relatos de contato com uma luz divina ou ambientes paradisíacos. É reconhecido que experiências desagradáveis, que podem ser associadas ao “Inferno” descrito por várias religiões, sejam subnotificadas em virtude da vergonha e temor do julgamento da sociedade [6]. No entanto, pesquisadores também já tem documentado suficientemente tais cenários “infernais” descritos por algumas pessoas que passaram por uma EQM. 

Raymond Moody

Os relatos colhidos por Greyson, Holden e James [7], por exemplo, dão conta de situações em que a pessoa se vê imersa, inicialmente, em uma escuridão densa e profunda. Quando não há um absoluto silêncio nessa etapa, há sons de gritos, lamúrias, choros ou ameaças. Em alguns casos documentados por Bush, sons de correntes ou de torturas também são relatados [8].

Após essa fase, em vez de chegar em ambientes paradisíacos, são descritos lugares hostis e perturbadores, por vezes desérticos, por vezes pantanosos, junto a sensações de muito frio ou muito calor. Nos relatos documentados por Greyson e Bush, quando há outros seres nesses ambientes, esses são descritos como sofredores ou ameaçadores, que transmitem medo ou insegurança [9].

Outros dois elementos comuns a quase todos os relatos são uma retrospectiva da vida antes da morte e a presença de deuses e espíritos “divinos” ou “demoníacos”. Na primeira situação, os principais momentos da vida pregressa são revisitados, por vezes como se fossem vistos em uma tela, por vezes reconstituídos do ponto de vista de outras pessoas que participaram desses eventos [10]. Na segunda situação, “os entes espirituais” que aparecem são, como regra, aqueles da religião professada pela pessoa ou sua família de origem. Assim, por exemplo, cristãos costuma ver Cristo, e budistas têm encontros com Buda [10]

Ao lado desses relatos modernos, temos também as descrições das antigas religiões sobre o que ocorre após a morte. Muitas delas são fantasias influenciadas pela doutrina oficial e pelas expectativas humanas. Mas, entre aquelas dignas de consideração, ocupa posição de destaque um texto tibetano cuja versão mais antiga que se tem conhecimento data do século oito da era cristã. Intitulado “Bardo Thodol” (que significa “Liberação pela cura no estado intermediário”), a obra ficou mais conhecida no ocidente como “O Livro Tibetano dos Mortos”, e tem o propósito de servir de guia ou manual para o espírito após a morte.

De acordo com o Bardo Thodol, a primeira coisa que ocorre após a morte é a percepção de uma intensa e clara luz, que nada mais seria do que a verdadeira natureza “búdica” e radiante de quem morreu. O espírito deveria estar preparado para identificar-se com essa luz, pois isso traria a iluminação após a morte, um estado em que sua mente seria “como um espelho” perfeito que a tudo reflete, libertando-se, assim, do ciclo de reencarnações.

Mas, se não conseguir alcançar essa compreensão, na sequência o espírito perceberá a presença de entidades aparentemente divinas, que são “pacíficas” ou “iradas” e que, novamente, não têm natureza objetiva, pois emanam da natureza radiante do próprio espírito. Se a pessoa também não reconhecer essas “deidades” pelo que realmente são, e deixar-se levar por elas, é atraída novamente para o mundo da confusão e dualidade e, por fim, volta a reencarnar, esquecendo-se de suas vidas passadas.

Frontispício do texto original do Bardo Thodol

Por fim, quanto à reencarnação, a crença nesse retorno do espírito ao “mundo material” é tão difundida entre antigas religiões de diferentes partes do mundo que esse fato já recomenda uma séria consideração sobre o que há de verdade nesse aumento. De fato, antigos gregos, judeus, celtas, indianos e chineses acreditavam que o espírito renascia em um outro corpo após a morte. Entre os que teriam difundido tais ideias no passado estão os orfistas, os pitagóricos, os neoplatônicos, os druidas, os rabis, os budistas e os hindus.

Mas não precisamos confiar na palavra dos antigos. Pesquisas modernas têm acumulado um impressionante número de relatos de crianças capazes de lembrar suas vidas passadas inclusive com detalhes. Um dos pioneiros dessa área, o psiquiatra Ian Stevenson, cuja reputação até entre os mais céticos de seus pares, jamais foi abalada, dedicou toda sua carreira ao estudo do fenômeno, e identificou que muitas crianças até os quatro anos de idade podem fornecer lembranças de sua vida passada, inclusive do momento de sua morte. Em todos os casos que estudou, Stevenson foi capaz de confirmar a existência das pessoas que as crianças afirmavam ter sido na outra vida, inclusive a forma como morreram [12].

Acumulando mais de cinquenta anos de estudos sobre o tema, o Departamento de Psiquiatria e Ciências Neurocomportamentais da Universidade de Virgínia/EUA documentaram mais de 2.200 casos em todo o mundo de crianças que declaravam ter lembranças da vida passada [13]. Jim Tucker, diretor do departamento, confirmou as constatações de Stevenson em seus próprios estudos, inclusive de que as crianças tendem a esquecer a vida passada quando se aproximam dos sete a oito anos de idade [14].

Notas:

[1] At the House of Death: A New Look at Evidence for Life After Death. Karlis Orsis and Erlendur Haraldsson. 2012.

[2] Characteristics of Near-Death Experiences Memories as Compared to Real and Imagined Evens Memories.  Marie Thonnard, Vanessa Charland-Verville, Serge Brédart, Hedwige Dehon, Didier Ledoux, Steven Laureys, Audrey Vanhaudenhuyse.

[3] What happens in the brain when we die? Deciphering the neurophysiology of the final moments in life; N. Shlobin, J. Aru, R. Vicente & A. Zemmar; 2023.

[4]Conceptions of the Afterlife in Early Civilizations: Universalism, Construtivism and Near-Death Experience. Gregory Shushan, 2009.

[5] Consciouness beyond life: the Science of the near-death experience; Pim Van Lommel; 2010.

[6] Phenomenology of near-death experiences; M. Perera, K. Jagadheesan & A. Peake; 2012.

[7] Distressing Western Near-Death Experiences: finding a way through the abyss; J. Holden, B. Greyson & D. James; 2009.

[8] The Budda in Hell and Other Alarms: Distressing Near-Death Experiences in Perspective; Nancy Evans Bush; 2016.

[9] Distressing near-death experiences; B. Greyson & N. E. Busch; 1992.

[10] The Handbook of Near-Death Experiences: Thirty Years of Investigations;Holden, Greyson & James; 2009.

[11] The Buddha in Hell and Other Alarms: Distressing Near-Death Experiences in Perspective; Nancy Evans Bush; 2016.

[12] Twenty Cases Suggestive of Reincarnation; Ian Stevenson; 1980.

[13] Past-life experiences; A. Mills & J. B. Tucker; 2014;

[14] Life before life: a scientific investigation of children’s memories of previous lives; Jim B. Tucker; 2005.

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